Formulação de argumentos e engajamento do público

Construção de discursos

Quando se trata de estrutura de um discurso oral, os gregos apontavam quatro partes essenciais: o exórdio, a narração, a confirmação e a peroração

Exórdio

Entende-se exórdio como abertura, ou seja, início do discurso. Trata-se do momento em que o orador precisa prender a atenção dos ouvintes para que o discurso seja ouvido por completo. Seu objetivo será conquistar o auditório, captar a benevolência, a atenção, o interesse. Fornecerá também certos elementos dos quais nascerão argumentos espontâneos tendo o discurso e o orador como objeto.

O exórdio deve adaptar-se às circunstâncias do discurso, ao orador e ao auditório, assim como ao assunto tratado.

Formas de iniciar um discurso

  1. Leve em conta a curiosidade dos ouvintes: As pessoas, via de regra, são curiosas. Se o orador as provocar, fazendo uma pergunta estratégica, elas ficarão em estado de atenção até que a resposta seja obtida.

  2. Conte uma história: Não importa se a história é fictícia ou real, mas, quando o orador narra fatos, ele pretende despertar nos ouvintes desejo e prazer, assim, consegue a atenção instantânea da plateia.

  3. Utilize um objeto: Se você mostra um objeto físico, por mais simples que seja, a plateia volta atenção a ele e você, dessa forma, consegue chamar a atenção do público. Claro é que esse objeto deve apresentar relação com o conteúdo a ser apresentado.

  4. Valha-se de uma citação: O uso de uma frase emblemática ou instigante, especialmente se for de alguém famoso, tem o objetivo de atrair o público. Cabe lembrar que essa frase deve relacionar-se ao discurso que será proferido.

Narração

Denomina-se narração ao segundo elemento da estrutura do discurso oral. Ela tem a função de situar o interlocutor e, para isso, deve apresentar o tema do discurso e a forma como ele foi delimitado. Ainda, nela costuma-se apresentar a tese, ou seja, a ideia que o locutor acredita ser verdadeira e será defendida na argumentação (terceiro elemento da estrutura).

Freitas (2019), Garcia (2006), Infante (1998) e Piovesana (2024) apontam alguns tipos de introdução, dentre os quais citamos:

  1. Citação: Usa-se uma citação relevante sobre o assunto. Se usada na medida certa, a citação torna-se uma grande aliada para que o orador atraia a atenção do ouvinte.

  2. Séries e filmes: Utiliza-se uma série ou um filme, especialmente se forem atuais, para criar um vínculo com a plateia, que se sente instigada a continuar ouvindo o discurso para saber aonde o emissor pretende chegar.

  3. Dados estatísticos: Usar dados estatísticos constitui uma boa estratégia, porque eles são concretos, palpáveis e, portanto, podem ser melhor visualizados pela plateia.

  4. Analogia: Consiste na comparação entre um determinado assunto e o tema. Geralmente, essa comparação, por ser muito criativa, chama a atenção do público, que se deixa levar pelo raciocínio do orador para ver até onde este vai

Argumentação

A argumentação é a parte mais longa e densa do discurso. Nela o orador deve ser capaz de comprovar a tese apresentada, pois disso depende a credibilidade do que ele diz.

Para construir um bom argumento, é necessário, antes de mais nada, definir a tese, ou seja, o ponto de vista a ser defendido. Para isso, responde-se à pergunta: “qual é a minha opinião sobre o assunto?”. Depois de definir a tese, a argumentação gira ao redor dela. Pensa-se, então, no seguinte: “quais são os argumentos que melhor se adequam à minha tese e validam a minha opinião?” Em seguida, pensa-se nos operadores argumentativos, isto é, em palavras ou expressões que fazem conexões entre ideias, conferindo às partes do texto a intenção desejada pelo orador, estruturando seu raciocínio em defesa de sua tese.

Freitas (2019), Koch (2002), Oliveira (2024) e Rinaldi (2024) apontam alguns tipos de argumentos, bem como os principais operadores argumentativos utilizados para apresentá-los. Dentre eles, destacam-se:

  • Argumento de autoridade: A ideia do orador é reforçada por uma fonte (indivíduo, grupo ou entidade conceituado, pertencente a uma determinada área de atuação profissional). Seguem alguns operadores argumentativos: segundo; de acordo com; conforme; como mencionado por.

  • Argumento de evolução histórica: A comprovação da tese é feita por meio de cronologia, isto é, acontecimentos e fatos ocorridos no tempo e/ou no espaço que remetem ao tema em discussão.

  • Argumento de exemplificação: Narrativas cotidianas, fatos divulgados pela mídia ou quaisquer outras possibilidades podem servir como evidência de uma problemática e, dessa forma, contribuir para a defesa do ponto de vista assumido.

  • Argumento de comparação: Comparações, apontando semelhanças ou diferenças, entre pessoas, lugares, objetos, dentre outras, são feitas para a construção de um ponto de vista.

  • Argumento com dados estatísticos: A inserção de dados estatísticos fornece evidências objetivas ao ponto de vista defendido. Os operadores argumentativos são os mesmos usados no argumento de autoridade.

  • Argumento por enumeração: Os argumentos são citados um a um, a fim de enumerar uma série de circunstâncias que provam a relevância do que está sendo dito.

Para produzir bons argumentos em um discurso, Freitas (2019), Figueiredo; Ferreira (2016) e Coroa et al. (2016) fornecem as seguintes dicas:

  1. Os argumentos devem ser explorados sob vários aspectos: políticos, sociais, culturais, econômicos, filosóficos, dentre outros, para que o orador consiga sustentar o discurso.

  2. Os argumentos precisam ser completamente desenvolvidos, do contrário, seu discurso será considerado “fraco”.

  3. Os argumentos, via de regra, vêm em afirmações, porque elas denotam credibilidade e confiança no que se diz. As afirmações devem ser confirmadas por meio de citações, exemplos, dentre outras possibilidades.

  4. Os argumentos devem ser apresentados um a um, para que a plateia os perceba claramente. Logo, a enumeração deles de maneira lógica permite uma construção discursiva sólida.

  5. Possíveis objeções aos argumentos apresentados devem ser previstas. Isso permite que o orador as desconstrua antes mesmo de serem suscitadas pelo público.

Peroação

Trata-se da conclusão do discurso, mostrando que a solução apresentada ao problema está adequada. É determinante para o sentimento com que a plateia irá permanecer após a apresentação. Portanto, não é aconselhável que o discurso termine com uma perspectiva opaca, negativa ou pessimista – essas sensações causarão uma impressão muito ruim acerca do que foi dito pelo orador.

Freitas (2019) e Costa (2002) apontam algumas sugestões para a peroração.

  • Resumo: No final, o orador resume os aspectos tratados, deixando claro como se posiciona em relação à temática apresentada.

  • Agradecimento: Uma maneira positiva de findar o discurso consiste em o orador fazer agradecimento à plateia por tê-lo prestigiado. Em sendo sincera, tal atitude demonstra humildade por parte do falante.

  • Humor: Uma história lúdica ou uma piada podem encerrar o discurso, provocando nos ouvintes uma sensação final de satisfação e alegria.

  • Citação: O uso de uma frase de efeito tem o intuito de levar a plateia a uma última reflexão, coerente com o que foi apresentado.

Construção de argumentos

A estruturação dos argumentos, de acordo com a retórica, é composta por quatro etapas: invenção, disposição, elocução e ação. Vejamos cada uma delas.

Invenção

Constitui, então, o momento em que o orador está concentrado na busca de argumentos que considera as melhores justificativas para a defesa da tese apresentada.

Disposição

É a etapa em que são organizados e distribuídos os argumentos de maneira racional e plausível no texto, em busca de uma solução para um problema em tela.

Se, por um lado, o orador, na invenção, reúne as provas, na disposição, ele as insere no discurso em sequência lógica ou psicológica, com o intuito de influenciar a plateia.

Elocução

A elocução é a redação do discurso retórico. Mais do que uma questão estilística, envolve o tratamento da língua em sentido amplo, abrange o plano da expressão e a relação forma e conteúdo: a correção, a clareza, a adequação, a concisão, a elegância, a vivacidade, o bom uso das figuras com valor de argumento.

Ação

Consiste na proliferição do discurso com tudo o que ele pode implicar em termos de efeitos de voz, mímicas e gestos.

O objetivo da ação é conquistar a atenção do público. Por isso, costuma dizer-se que a ação tem um caráter de interação entre orador e público: ambos devem estar envolvidos no processo de transmissão e recepção do discurso. Caso isso não ocorra, é bem possível que o ato comunicativo não se realize plenamente.

Engajamento do público

O engajamento constitui um fator crucial para o sucesso do discurso, uma vez que cria conexões significativas entre aquele que fala e aqueles que ouvem.

Não importa para quantas pessoas o orador fala nem o grau de intimidade entre ele e seu público: falar em público sempre requer cuidado na preparação das ideias, no modo de dizer e na forma de conduta, passos essenciais para que o engajamento possa ocorrer.

Carnegie (2020) explica que há três motivos para que um discurso seja feito: informar, entreter ou inspirar ação. Em qualquer um dos casos, o objetivo só é alcançado se o orador atrair o interesse, a atenção e a confiança dos seus ouvintes. E o orador precisa mostrar que merece ganhar a confiança do público.

Estratégias para manutenção do engajamento

Blog Clube da Fala (2019) e Souza (2020) apresentam algumas estratégias para manutenção do engajamento.

  • Envolver o público: O orador deve fazer da plateia uma plateia especial em meio a tantas outras plateias que existem. Para alcançar esse objetivo, o orador pode, dentre tantas possibilidades, fazer perguntas e levantar questionamentos.

  • Despertar emoções: Para isso, o orador pode se valer de palavras, do tom de voz e de gestos para provocar diferentes reações, estabelecendo uma conexão emocional com o público.

  • Manter contato visual: É importante que o orador faça contato visual com os ouvintes, já que ele almeja conquistar a atenção da plateia para que ela se interesse pelo assunto. Se o orador fica o tempo inteiro lendo suas anotações ou olhando os slides, por exemplo, leva o público a sentir-se excluído da apresentação, o que pode entediá-lo, fazendo com que ele perca o interesse no discurso.

  • Contar histórias: A técnica de contar histórias recebe o nome de storytelling. Caracteriza-se por ser uma ferramenta valiosa, já que, desde crianças, aprendemos a prestar atenção nas narrativas. Exatamente por isso, o storytelling pode criar a sensação de um ambiente mais acolhedor e íntimo.

  • Atentar-se à postura e aos gestos: A forma como o locutor se comporta diante do público faz toda a diferença no momento de envolvê-lo e manter esse envolvimento, é preciso que ela vá ao encontro das palavras que o orador diz.

    Romano (2017) aponta que existem duas categorias de gestos:

    • descritivos (expressam uma ação ou localização)

    • enfáticos (expressam sentimentos e convicções, destacando e reforçando ideias)


    Os gestos mais eficazes são aqueles gestos feitos de coração.” Por isso, é importante que o orador se prepare para falar em público, procurando sentir e visualizar o que pretende passar para a plateia.

  • Realizar pesquisas de satisfação: Isso significa que o orador pode ouvir a plateia sobre o que ela tem a dizer sobre o discurso proferido, se ela gostou ou não, o que pode ser melhorado.

  • Movimentar-se (se possível): Ficar parado e não se movimentar pode levar o público a acreditar que o orador está nervoso e isso pode gerar falta de credibilidade no que está sendo dito. O ideal é que o falante seja natural e movimente-se de acordo com o ritmo das palavras que profere.

  • Ter cuidado com o uso de ferramentas de apresentação: Somente o uso de powerpoint pode deixar um discurso monótono. Na sociedade atual, há muitos recursos tecnológicos dos quais o orador pode se valer. Portanto, ele pode pesquisar o que melhor se adapta à sua fala e aos seus propósitos comunicacionais.

O punch

Ross (2023) cita o punch como uma estratégia poderosa de manutenção do engajamento. “O punch, como é popularmente conhecido, trata-se de um ‘soco’ na sua comunicação, isto é, formas e maneiras de mantermos a atenção das pessoas.”

O punch atrela-se ao discurso que está sendo proferido, uma vez que há lugares em que é necessária uma postura mais formal, profissional, enquanto há outros em que o orador pode apresentar um comportamento mais informal, despojado. Ross (2023) aponta algumas categorias de punch.

  1. Punch pessoal: O orador cita um exemplo pessoal, porém relacionado à temática abordada. Isso engaja e sensibiliza o público.

    Punch inesperado: O orador, para captar a atenção da plateia, vale-se de elementos que vão além das palavras, como tecnologia ou convidados especiais. Vale, aqui, a criatividade do falante.

    Punch cômico: Rir constitui uma excelente maneira de manter o público engajado, podendo ser uma alternativa para “quebrar o gelo”. Todavia, é necessário dosar o humor, a fim de que a plateia não se sinta ofendida.

    Punch de dados: A apresentação de dados estatísticos pode levar o público a entender melhor o que está sendo apresentado, por se tratar de uma prova concreta.

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